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Manejo pré abate de bovinos e os fatores que influenciam a qualidade da carne

Veja os impactos do mau manejo pre abate nos bovinos e como o preço do produto final é prejudicado. Você sabe como evitar que esse processo prejudique seu lucros?
por Renato Reis em 13/Feb/2020

Sabemos que a cadeia produtiva da carne bovina tem evoluído muito nos últimos anos em direção à diferenciação e qualidade. Para que essa evolução até o produto final tenha sucesso, depende de um bom manejo no Pré abate.

Nesse texto você vai entender o que pode ser feito pelo produtor para minimizar os impactos do mau manejo pré abate nos bovinos e reduzir atritos com os frigoríficos, garantindo um bom retorno financeiro pelo boi embarcado.

O mercado está buscando produtos diferenciados e os sistemas de produção estão se adequando ao mercado e claro, são pagos também de maneira diferenciada pelos frigoríficos.

Ok, sabemos que o produtor e o frigorífico tem que oferecer um produto de qualidade para o consumidor, mas então o que seria este produto de qualidade?

A visão do consumidor sobre uma carne de qualidade

Um produto de qualidade é aquele que atende as necessidades do consumidor de forma confiável, segura e acessível.

Atração visual

Quando um consumidor de carne bovina vai as compras, ele avalia a qualidade visual e os aspectos que o atraem ou repelem de adquirir o produto, avaliam também a qualidade gustativa da carne que faz com que o consumidor venha a adquirir novamente o produto.

Atração nutricional

A qualidade nutricional do alimento também é avaliada na hora da compra, nos dias atuais vemos uma preocupação muito grande com a saúde e nutrientes que os alimentos fornecem, fazendo com que o consumidor crie uma imagem favorável(ou não) do alimento.

Preocupação com segurança alimentar

Há uma preocupação sobre se produto que ele está adquirindo cumpre os aspectos higiênico-sanitários de forma adequada e também a preocupação com o bem-estar-animal que agora passa a impactar na decisão do consumidor final.

Gosto

Nos fatores que influenciam a qualidade gustativa e visual da carne, dependem de fatores ante mortem (Intrísecos) que são relacionados ao efeito do estresse, da genética , da alimentação e da idade de abate ou  post mortem (extrínsecos) que estão fora do controle do pecuarista.

Esses são diretamente relacionados com os procedimentos técnicos adotados pelos frigoríficos e demais segmentos, até o consumidor final, e é deles que vamos falar agora.

Da do embarque até o abate

Agora que sabemos o que é um produto de qualidade, o que o consumidor procura quando vai as compras e o que pode impactá-lo na decisão de compra, vamos nos aprofundar no que é necessário para fornece-lo.

Existem “N” processos e fatores para se fornecer uma carne de qualidade ao consumidor final, que  passam desde a parte da cria, recria até terminação dos animais.

Esses fatores se relacionanam com variáves de genética, idade de abate, de uma nutrição adequada, comportamento animal, manejo e bem-estar para que a fazenda cumpra seu papel na cadeia produtiva da carne.

Período pré abate

Para cumprir este papel de forma adequada, os animais passam por uma etapa que é denominada de período pré-abate que se inicia na fazenda e depois depende do frigorífico.

O período se inicia 30 dias antes do animal ser abatido e finaliza no momento do abate. O manejo inadequado durante este processo impacta diretamente na qualidade da carne.

Trabalhamos em conjunto e cada um tem que fazer sua parte, pois, não adianta fazer com que produtor forneça um produto de qualidade e bem acabado. Se temos problemas logísticos, problemas de embarque e transporte fazendo com que os animais cheguem lesionados nos frigoríficos.

De mesmo modo, também é prejudicial que se machuquem nos currais de espera dos frigoríficos, que muitas vezes possuem estrutura e manejo inadequado para o recebimento dos animais, ou seja, as instalações, as pessoas e os animais tem que estar em constante harmonia.

Estresse

animais no curral para manejo pre abate de bovinos

Acontece que o bovino gosta muito de rotina, e essa movimentação de saída do pasto ou curral de confinamento, onde já estava acostumado a conviver com um grupo de animais específicos, com acesso a comida e água, para o frigorífico é impactante para a qualidade do produto.

Após o transporte, geralmente, esse animal é manejado para um curral muitas vezes com alta densidade animal, sem acesso a comida, e algumas vezes sem fornecimento de água, em contato com animais e pessoas diferente do que está habituado.

Imagina o quão estressado o boi fica neste meio termo, ainda ficando muito propício a lesões. Ou seja, tudo isso modifica o metabolismo post-mortem, principalmente na velocidade da glicólise e no nível de acidez muscular.

Além do que os animais cansados originam carne com menor tempo de conservação, em virtude do desenvolvimento incompleto da acidez muscular e consequente invasão precoce da flora microbiana.

Contusão de carcaça

limpeza de carcaça manejo pre abate

Além do fator stress, que impacta diretamente na qualidade e  conservação da carne, temos um grande impacto com o problema relacionado a contusões nas carcaças.

Essas lesões representam as grande parte das perdas para o frigorífico e para os produtores que fornecem as carcaças, afinal, a medida que são removidas na linha de abate, temos uma queda no rendimento de carcaça.

Ou seja, uma taca no bolso do produtor e grande impacto no frigorífico por não conseguir oferecer cortes homogêneos e de qualidade para o mercado.

Quando essas lesões ocorrem no animal ainda vivo, podem ser reflexo de problemas durante o manejo pré-abate com problemas com instalações na fazenda.

Devemos estar atentos a currais inadequados fazendo com que os animais tenham lesões no couro, nas carcaças, ou no manejo na lida com os vaqueiros, como por exemplo: utilização de choques ou ferrões que podem prejudicar a qualidade do couro e também causar lesões.

Na maioria das vezes só conseguimos identificar estas lesões depois que retiramos o couro dos animais fazendo com que não conseguimos identificar o momento exato no qual ocorreram.

Jejum

Na chegada do frigorífico também temos a questão do jejum, sabemos que os animais, de acordo com a a legislação brasileira, têm que passar por um jejum de 6 a 24 horas dependendo do período de transporte.

Este processo pode impactar negativamente na qualidade da carne pois faz com que o animal recomponha a frequência cardíaca e respiratória mas devido ao jejum, não consiga restabelecer as reservas de glicogênio muscular.

Desse modo, temos que nos atentar que realmente estão sendo cumpridas de 6 a 24 horas de jejum no frigorífico e que essas horas têm que ser somadas ao período do manejo do animal na fazenda e ao transporte.

Esse é um ponto de atenção porque pode ter um grande impacto na qualidade de carne deste animal devido ao consumo excessivo das reservas de glicogênio muscular.

Condenações parciais de carcaça

banho em bovinos no manejo pre abate

Também temos inúmeros problemas de relacionados as condenações parciais de carcaças devido a abs­cessos provenientes de vacinas e medicamentos, junto a hematomas formados devido a mau manejo pré-aba­te.

Esses abscessos são motivo de grande prejuízo para frigoríficos e produtores, e também impactam no mercado internacional, quando o produto final é de exportação.

Todos esses fatores fazem com que tenhamos que cumprir o dever de casa da porteira para dentro, praticando boas práticas de manejo, oferecendo bem-estar-animal que além do caráter ético, facilita e muito o trabalho e aumenta o desempenho animal.

Sabemos que a remuneração paga aos produtores é através do peso das carcaças, realizado ao final da toalete das mesmas e após a retirada de todas as lesões e alterações que apresentarem ao longo da sua inspeção, independente de sua localização.

Dicas para garantir uma boa qualidade do produto final

Bem-estar

A dica que eu dou é que devemos prezar para o bem-estar dos animais, evitando gritos, agressões como ferroadas e choque. Com isso, tenho toda certeza que, além do fator ético, este tipo de manejo vai nos devolver em produtividade, facilitando o manejo diário, evitando  que os colaboradores e animais se machuquem.

Estrutura

Tenha também uma estrutura adequada, faça o caminho que o boi faz do pasto para o curral de embarque ou do confinamento ao curral de embarque.

Verifique possíveis problemas e itens que possam prejudicar a carcaça dos animais, tente separar os animais por lote comum de convívio em cada porteira de curral para evitar brigas.

Parcerias Confiáveis

É importante também ficar a par da experiência do condutor do caminhão, estudos comprovam que motoristas mais experientes, têm mais cuidado no transporte dos animais.

De mesmo modo, é uma boa prática conhecer o frigorífico que você está abatendo seus animais.

Faça visitas, conheça os currais e o processo de abate, afinal como citei acima, é difícil saber o momento exato que houve as lesões, mas no abate, o boi te conta depois que se tira o couro, o que facilita descobrir o que houve e tomar alguma providência em um próximo abate.

As margens na pecuária estão cada vez mais apertadas, temos que trabalhar de forma adequada da porteira para dentro entregando carcaças de qualidade ao frigorífico, livre de lesões, abscessos, sempre evitando o stress animal para então fornecer um produto adequado ao consumidor final.

 

Sobre Renato Reis

Graduando em Medicina Veterinária, está envolvido com a pecuária durante toda vida acadêmica, acompanhando de perto produtores, com foco na gestão, manejo de pastagens, nutrição e sanidade animal.
Hoje na PRODAP se empenha todos os dias para  transformar a pecuária no mundo e a história dos nossos clientes.

 

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