Tripanossomose bovina: O que é, transmissão, diagnóstico e tratamento

O Trypanosoma vivax é um parasita que afeta ruminantes em geral e causa grandes prejuízos financeiros. Saiba tudo sobre este protozoário e como tratar animais infectados.
por Thais Camargos em 10/Feb/2021

Os casos de tripanossomose vêm crescendo em todo o país. Entenda um pouco mais sobre a doença: quais os sinais clínicos, como é transmitida, as formas de diagnostico e como tratar. 

vaca com tripanossomose

O que é a tripanossomose bovina?

A tripanossomose bovina é uma doença causada pelo protozoário Trypanosoma vivax.

Também conhecida como tripanossomíase bovina, é uma enfermidade cuja ocorrência vem crescendo de maneira alarmante em todo o país e acomete rebanhos de leite e de corte.

No Brasil, casos da doença já foram reportados em vários estados, como Pará, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.

A doença é responsável por inúmeros prejuízos financeiros, relacionados principalmente com a morte dos animais, abortos e queda na produção leiteira. Alguns pesquisadores relataram queda de 25% na produção de leite e mais de 45% na taxa de prenhez em alguns surtos da doença. 

Veja também: 6 Dicas para o controle e prevenção da Tripanossomose bovina!

Sinais clínicos

O principal sinal clínico da doença é uma anemia profunda e, por esta razão, pode ser confundida com outras parasitoses (anaplasmose, babesiose ou verminoses).

A anemia pode ser acompanhada por caquexia, que é um emagrecimento progressivo e acentuado. Também são relatados outros sintomas inespecíficos, como apatia, febre, linfadenopatia, e até mesmo alguma sintomatologia neurológica. 

Existem animais que podem se tornar assintomáticos, ou seja: são portadores do Trypanosoma vivax mas não apresentam sinais clínicos. Estes animais são uma fonte de infecção, podendo transmitir a doença para animais saudáveis dentro do rebanho. 

Além disso, quanto mais debilitado o hospedeiro, mais severa é a doença. Animais com problemas nutricionais ou sanitários, com doenças concomitantes, sofrem mais com a tripanossomose. 

vaca com tripanossomose

Como ocorre a transmissão da Tripanossomose bovina

Como o T. vivax é um hemoparasita, sua transmissão se dá principalmente pelo contato de um animal sadio com o sangue contaminado de outro animal.

Moscas hematófagas como os tabanídeos (mutucas), a mosca-dos-estábulos (Stomoxys sp.) e a mosca-dos-chifres (Haematobia irritans) ajudam na propagação do T. vivax.

Veja também: Parasitas em bovinos - Como fazer o controle estratégico parasitário do rebanho leiteiro

Objetos que favoreçam o contato com o sangue de animais infectados também possuem potencial de transmitir a doença. Este é o caso de materiais e instrumentos usados em cirurgias e procedimentos, como lâminas, agulhas, bisturis, entre outros.

Em fazendas leiteiras ainda é muito comum o uso de ocitocina durante a rotina de ordenha. Uma situação bastante comum é o reaproveitamento de agulhas e o uso compartilhado para vários animais.

Muitas vezes a justificativa para isso é a redução de custos, porém o que não é considerado é o fato de que o valor de um animal perdido para a tripanossomose é muito maior do que o preço a ser pago pelas agulhas e seringas descartáveis.

O uso de seringas individuais evita não apenas a transmissão de tripanossomose, mas de outras doenças como a leucose e a brucelose.

descarte de seringasUm animal infectado pode infectar vários animais sadios. Quando há mais de 20% dos animais infectados, considera-se que todo o rebanho está infectado, dada a rapidez da transmissão entre animais por seringas.

A entrada de novos animais na fazenda é a maior porta de entrada para a doença em um rebanho saudável. Animais só devem ser considerados livres da doença após realização de exames e, ainda assim, a quarentena é recomendada.

Imagine a seguinte situação...

Você, produtor de leite, decide comprar algumas vacas do seu vizinho. Você escolhe as mais bonitas e, obviamente, que aparentam estar mais saudáveis.

O que você não sabe é que essas vacas são portadoras do T. vivax!

O stress ocasionado pelo transporte e pela mudança de lote na fazenda pode provocar uma queda na imunidade, fazendo com que essas vacas passem a manifestar os sinais clínicos e apresentar uma parasitemia, que é quando o parasita está em circulação na corrente sanguínea.

Assim, as vacas bonitas que você comprou passam a ser fonte de infecção para as vacas sadias que você já tinha no seu rebanho. Viu como é importante garantir a procedência do gado? 

Quando um novo rebanho é infectado, a mortalidade pode ser baixa nos primeiros meses. Com o passar do tempo, novos animais vão se contaminando e começam a exibir mais sinais clínicos e a taxa de mortalidade pode aumentar.

Como fazer o diagnóstico da Tripanossomose bovina

A tripanossomose é uma doença de difícil diagnóstico por causa das peculiaridades do parasita.

trypanosoma

O tripanossoma possui uma capacidade de evasão do sistema imune, se alojando em locais fora da circulação sanguínea, como o humor aquoso (líquido presente nos olhos) e no líquor (líquido que protege o cérebro e o sistema nervoso).

O diagnóstico definitivo é baseado no exame clínico, em achados de necrópsia, associação de fatores de risco, histórico dos animais e exames laboratoriais (parasitológicos, sorológicos e moleculares).

Vamos entender um pouco da dinâmica da infecção

  • Fase aguda: no início da infecção temos as chamadas ondas parasitêmicas, ou picos de parasitemia. Nestes picos é mais fácil visualizar o parasita no esfregaço sanguíneo.

  • Fase crônica: depois de alguns dias de infecção a parasitemia cai. Isso nos dá duas opções de interpretação: o organismo está destruindo o parasita ou ele está saindo da circulação sanguínea e migrando para outros locais do organismo, “enganando” o sistema imunológico do hospedeiro.

Tipos de testes que podem ser realizados para o diagnóstico

  • Exames parasitológicos: são testes mais seguros, porém métodos que dependem da visualização do parasita no sangue nem sempre coincidem com a fase aguda da doença (fase de maior parasitemia). Exemplos: gota espessa, teste de Woo.
  • Exames sorológicos: são importantes para definir qual o nível de infecção dos rebanhos. Mas se os animais vêm sendo tratados, os exames podem indicar que os animais já foram infectados, não necessariamente que estão infectados no momento. Exemplos: RIFI, ELISA.
  • Exames moleculares: estes exames procuram pelo DNA do parasita e, se o resultado for positivo, quer dizer que o tripanossoma está presente. O ideal é que sejam associados a testes sorológicos. Exemplo: PCR.

Tratamento da Tripanossomose bovina

O plano de tratamento pode ser individual ou coletivo, onde todo o rebanho é tratado.

  • Tratamento individual: pode ser adotado em situações onde não existem evidências de que todo o rebanho esteja infectado. Pode ser indicado para animais vindo de outros rebanhos e animais de alto valor que estão infectados. Mesmo sendo tratados, esses animais devem ficar isolados do resto do rebanho.

  • Tratamento do rebanho: primeiro é necessário verificar o status da infecção e depois descobrir o percentual do rebanho que está infectado. O monitoramento durante o tratamento é importante para acompanhar a eficácia e para identificar animais potencialmente assintomáticos.

De maneira geral, as estratégias de tratamento só podem ser definidas após o diagnóstico feito por um médico veterinário.

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Sobre Thais Camargos

Médica Veterinária graduada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente trabalha como Consultora de Sucesso do Cliente na Cadeia do Leite. Acredita na digitalização como uma maneira de transformar muitas histórias pelo Brasil. 

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